Ela estava deitada no sofá de couro marrom, todo rachado, a televisão passava clipes aleatórios no mudo. A porta da varanda estava um pouco aberta e deitava entrar um vento frio que ondulava a cortina transparente e ela se atentava a essa imagem fixada. enquanto os olhos registravam isso, o cérebro viajava milhares de quilómetros por hora, revivendo cenas que realmente acontecendo, hora inventando cenas que poderiam ter acontecido. Isso não era uma nova mania para Laura, desde criança ela já era nostálgica, revivia durante horas momentos passados, mas geralmente era uma nostalgia boa, que a fazia sorrir, dessa vez era uma nostalgia opressiva, que parecia empurrar suas clavículas para baixo, para dentro enquanto o coração queria sair do corpo. Estava difícil respirar.
Aquilo estava deixando-a louca, os dias passavam sem que ela percebesse, quando se dava conta a luz do sol acabava e ela ficava ali no escuro, remoendo de novo e de novo. a luz do sol não esquentava nada, era só luz, mas mesmo assim ela vestia a mesma camiseta e o mesmo shorts a dias, seu corpo já estava se aderindo ao sofá.
O sol nasceu de novo, nasceu mais forte, parecia chamá-la, não que ela quisesse que alguém a procurasse, queria curtir sua dor sozinha, sem companhia, fosse de pessoas ou de lágrimas. ela ainda não havia liberado uma lagrima sequer, mesmo quando os olhos estavam cheios ela não permitiu que transbordassem, e quando pessoas ligaram para ela, ela não atendeu, ignorou mais de 30 ligações segundo a tela do celular. Não queria a humilhação e o inchaço que as lagrimas traziam e muito menos a pena vibrava na voz das pessoas. Dessa vez ela iria ficar isolada até passar, mas parecia que seria eterno, para sempre viveria ali, naquele apartamento cheio de memórias e frustrações.
Parecia que ia valer tanto a pena, ela teve as maiores esperanças seguidas da maior decepção. Poderia ter sido diferente.
poderia, mas como? ela tinha certeza que tinha feito tudo, talvez tenha pecado pelo excesso. é, só podia ter sido o excesso. ela fez demais, deve ter sufocado, ela… Ela poderia ter sido traída, mas isso passou de relance, não suportaria essa hipótese, porque alguém a trairia? modéstia a parte era uma boa namorada, quando queria lógico. e dessa vez quis mais que tudo, a única vez que levou a sério, que se comprometeu, que se apaixonou de verdade, estava madura, saberia cuidar da situação, fez planos, fizeram planos, só para que fossem quebrados, mas ela não tinha ouvido isso mesmo? “Planos são feitos para serem quebrados, quando os nossos quebrarem promete não ficar chateada?” no dia não pensou, parecia improvável demais aqueles planos se quebrarem. estavam apaixonadas, o ar no quarto revelava isso, e sexo então… Só com a lembrança um arrepio percorreu todo o corpo. O relacionamento poderia ter acabado, mas ela duvidava muito que a química tinha, e se ela pudesse, pagaria para ver.
Todos tinham apostado nelas. E talvez take them for granted. Os olhos iluminados quando se olhavam, os sorrisos, a troca de olhares, não havia sequer uma pessoa que não se encantou e não tenha desejado palavras de sorte e elogios para elas. todos. então porque não havia sido suficiente. o que eu fiz de errado?
aquela dor no peito precisava acabar e na hora, mais um segundo e ela iria explodir, implodir, já não fazia diferença. levantou num ímpeto, a pele doeu por causa do couro do sofá, mais um pouco e ela seria parte do sofá. passou a mão onde doía e foi até a cozinha. pegou uma garrafa de água e percebeu a sede que estava, tomou tudo deixando umas gotas escorrendo pelo rosto e peitos, a camiseta branca absorvendo parte. jogou a garrafa no lixo e ja tirou a camiseta e o shorts que era pouco mais que uma calcinha. olhou um momento para o reflexo no vidro, o brilho no olhar era evidente, mas era um brilho quase de fúria. os cabelos sempre limpos estavam oleosos e desorganizados, olheiras sob os olhos evidenciavam pouquíssimas horas de sono nos últimos dias, mas ela não queria dormir, precisava de um banho, só.
foi para o banheiro, ligou a agua quente e tomou banho. depois abriu totalmente o chuveiro deixando a agua completamente gelada atingir directamente sua cabeça e escorrer pelo corpo. aquilo era revigoraste, ficou assim um tempo esfriando, literalmente, a cabeça. respirou fundo e deixou as lagrimas escorrerem, a agua fria não ia permitir que seu rosto inchasse e ninguém notaria que ela havia chorado. queria animação naquele dia, e álcool, muito álcool. era apenas mais um ritual de libertação.
colocou o roupão e foi ao quarto, evitou todas as combinações que usara recentemente, queria algo novo. fez uma mistura de roupas que gostou e deixou-as em cima da cama. colocou uma calcinha e voltou ao banheiro, arrumou os cabelos, passou uma maquiagem leve, gostou do que viu, sorriu com certa malícia. onde será que estavam todas aquelas meninas que viviam esperando que ela ficasse solteira?